não caibo dentro de mim
sou tanta coisa
sou um som de uma melodia
sou um por do sol
sou uma gota de chuva que se mata no chão e ganha
vida na terra
sou pássaro com asas enormes que me impelem
contra a corrente de um ar tão denso quanto uma
noite cerrada de murmúrios
sou um sol como Luís XIV e a sua grandiosa figura
numa França enfurecida
sou noite
como fantasma como uma porta que se abre numa
casa esquecida num monte de vendavais
sou um momento de loucura
sou um momento de prazer que se propaga como uma
onde de calor num dia de verão quente
sou um sorriso de uma pessoa que se diverte com a
brincadeira de um gato
sou a tristeza de um velho só esquecido por entre
as molduras que ornamentam a sua lareira
sou a distância que trespassa a minha própria
vontade
e gostava de ser uma folha para me escreverem
tudo o que lhes fosse de desejo e assim partilhar
o mais intimo e o mais sagrado
e gostava de ser homem de barro e moldar com as
mãos e cabeça uma peça viva como o corpo de uma
mulher
e gostava de ser o vento
e não ser uma simples aragem que sopra e que se
esquece a seguir.
Beijo