O início do Cântigo Negro de José Régio, que fui obrigado a saber de cor, para uma peça de teatro, fez-me lembrar agora as vítimas da Casa Pia.
Quantas vezes terão ido aquelas crianças, enganadas, somente à procura de um olhor meigo nos olhos de alguém, um alguém que não conheciam mas que lhes prometiam bem estar, segurança e carinho?
Quantas terão sido as vezes que os olhos doces, das crianças, terão olhado para a vida de forma inocente? E quantos olhos, supostamente a pensar em doces, terão olhado para as mesmas crianças, imaginando, também elas, o céu?
Lembrei-me, assim de repente, do sofrimento agonizante que estas crianças são vítimas diariamente.
Os nossos olhos, olham para tudo isto de uma forma distante, interessada mas distante do drama pessoal e social de cada um. Os nossos olhos conseguem ver à nossa volta algo de doce e meigo. Estas crianças pensarão nisso? Imaginarão elas confiar num qualquer olhar meigo que se lhe atravesse à frente?
Queremos saber tanto deste drama, interessa-nos tanto o drama alheio, pois é mais doce que o nosso. O nosso confunde-nos e afugenta-nos mas para os outros é mote para conversa.