Tenho à minha frente o “último livro” de um grande escritor português, Vergílio Ferreira. Sem receio digo que é o autor que mais gosto, isto pela profundidade existencial que está explicita e implicita na sua obra.
Agora não resisto a abrir aleatoriamente o livro e transcrever um dos muitos pensamentos que o preenchem:
296 Mas em tudo na vida do homem se instala o incrível fas-de-conta. É o alimento e a mola real de tudo. a obra que se realiza, o nome que se há-de deixar, o filho que se criou. De tudo isso a luz que irradia destrói as sombras que estão para lá. Se a evidência da nossa condição nos queimasse com salvar-nos da loucura que nela viria? Espinosa disse que o verdadeiro homem pensa menos na morte que na vida. Mas isso não é uma lição moral porque é a nossa fatalidade. E o usuário que morre com as chaves do cofre na mão ilustra a afirmação do filósofo. Mas nós não aplaudimos o usuário. E todavia glorificamos o que morre de armas na mão e chamamos-lhe herói. E temos razão num caso e noutro. Vê se consegues explicar bem a diferença.
Vergílio Ferreira in Escrever