Aquilo era uma loucura total! O pessoal saia da escola e numa corrida desenfreada chegava, em escassos momentos, à tasca onde os matraquilhos esperavam pacientemente, sempre no mesmo lugar. Quem chegava primeiro tinha o direito de jogar em primero lugar, evidentemente, o que fazia com que os putos arranjassem esquemas para chegar mais cedo, e um deles era dar umas faltas de quando a quando.

As equipas já estavam feitas, e a moeda de 5, 10 e 20 escudos, sequencialmente com o tempo e a inflação, tinham que dar para o pessoal estar ali o maior tempo possível. O bota-fora era assim o esquema implantado e não era reclamado por ninguém. Os putos jogavam contra quem aparecia. Jogavam contra os restantes putos ou contra os mais velhos, que eram os amigos do filho do dono da tasca. O pessoal ficava ali a jogar, eu era guarda-redes fixo, sem grande jeito para o ataque, e só ia embora quando a derrota afastasse a equipa ou o dinheiro já não existisse dentro das calças ou calções!

Passou o período da tasca e os putos já eram adolescentes e iam todos para um salão de jogos, e ali ficavam também tardes inteiras. Mas houve um período de interregno muito grande, entre a tasca e o salão, até porque o pessoal só podia entrar se tivesse mais de 16 anos.

Mas o gosto começou a crescer e as moedas, agora de 50 escudos, entravam umas a seguir às outras. A competição aparecia, com o mesmo método de outrora, o bota-fora, e ficávamos ali horas seguidas a jogar, a desafiar, a perder e querer a desforra. Os dias passavam, agora eu tinha deixado o baliza e tinha-me tornado num avançado com técnica apurada, temido já por alguns, e isso fazia com que me envolvesse mais no jogo, e não tivesse problemas em arranjar parceiro para jogar. Era a loucura total!

O tempo passou e agora de quando a quando faço o gosto às mãos e aos pés dos bonecos.

E memória faz-me sorrir e lembro-me da música dos Fúria do Açúcar, “O Rei dos Matraquilhos” e canto-a com piada.

Nos entretantos fiquei a saber que quem inventou os matraquilhos, um dos “desportos” favoritos do pessoal, foi um espanhol, de seu nome, Alexandre Finisterre. Ele não sabe, mas fez com que muitos putos passassem momentos muito felizes .


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